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Qual é o seu filme de terror predileto?
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Dia 30 de agosto perdemos o grande diretor e roteirista Wes Craven, que assinou diversas obras de terror do cinema americano pré anos 2000, bem como a Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 86) e Pânico (Scream, 96). E é sobre esse último que vou falar e exaltar para o patamar qual lhe é merecido.
Primeiramente, um disclaimer
Sim. Eu gosto mais de Pânico do que de A Hora do Pesadelo, isso é fato. Mas como fã incondicional do cinema/literatura de terror (já contei pra vocês que sou devoto de Cthulhu?), amo a ambos. E não nego que o trabalho mais icônico de Wes muito provavelmente foi A Hora do Pesadelo. Mas foi uma obra criada no auge do cinema do horror. Na era de ouro, eu diria - as continuações, medonhas no mal sentido, de várias obras, praticamente nem existiam, e o hype sobre as películas de horror era gigantesco. Mas Pânico surgiu num contexto totalmente diferente - surgiu quando as bizarras continuações de filmes que conviveram com seu irmão mais velho vinham surgindo. Os anos 90 foram berço de continuações de Jason, do máscarado que deu origem ao Ghostface Killer, Halloween, e do próprio Freddy Grueger, em sequelas das quais o próprio Wes Craven fez questão de não estar presente em suas respectivas produções. E meio ao caos cinematógrafico de produções quase inassistíveis, surgiu a obra prima (na minha opnião, claro) do nosso diretor em questão.
Contexto + metalinguagem + hype absurdo: uma fórmula de sucesso para poucos
E foi justamente a nata do pior do cinema de terror dos anos 90 que proporcionou a possibilidade de existir Scream. Neve Campbell em seu primeiro (e um dos poucos) papeis memoráveis pelo grande público, interpreta a "genial" (com muitas aspas aqui, vocês vão entender o porquê) Sidney Prestcott. Jovem, bonita, MUITO PARECIDA COM A LINDA HAMMILTON, inteligente e adolescente. Identificaram? Sim. Ela é a personificação típica da protagonista de filmes de terror. Mas claro, você não sabe disso no início: começar matando a Drew Berrymore, numa personagem que é tão quanto ou mais personificação da princesinha de filmes de horror logo na primeira cena é a melhor forma de começar a história, por que não?
É de Neve Campbell que sai, logo no início, o início da densa meta linguagem da qual seríamos agraciados por toda a quadrilogia de filmes, quando o nosso vilão a indaga sobre filmes de terror:
"Qual é o ponto? São todos iguais. Algum estúpido assassino observando alguma garota de peitos grandes que na hora da ação sempre corre escadas a cima quando deveria sair correndo pela porta da frente. Isso é insultante".
Todo esse discurso pra logo em seguida, numa cena incrível de perseguição, ela fazer exatamente a mesma coisa - e sem parecer galhofa aos olhos do expectador!
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| Tem cara de filme de comédia... Mas é! Quem disse que terror e comédia são opostos mesmo? |
Personagens únicos, geniais e... Opa, pera lá, já vi isso em algum lugar...
Ainda que nos demais filmes sejamos apresentados a ótimos personagens, eles não chegam perto de serem tão caricatos quanto os do primeiro filme.
A protagonista, é a típica heroína, a garota que não se aflige (e inclusive segue o famigerado Monomito, recurso narrativo conhecido como "A Jornada do Herói"), é bela aos olhos das pessoas, e além de tudo é meiga e feminina.
A jornalista (e minha personagem predileta na franquia), Gale Weathers. Nem preciso falar, né? Ela é caricata até no nome - inclusive a personagem percebe isso, fazendo um comentário sobre. Interpretada pela magnânima Courtney Cox, no auge de sua fama em FRIENDS (e junto com a Drew Berrymore, o único nome notável do filme), ela é até certo ponto, o olhar do telespectador sobre a trama. Em paralelo com isso, temos a personagem em si, com seus graus de compexidade, mas é ela quem trás pra trama certo grau de seriedade - sendo ainda assim extremamente caricata.
O policial Dwight. Tipicamente, a força da lei que sempre tenta bater de frente com as forças sobrenaturais (em Scream, nem tanto) que afligem a população qual o homem da lei deveria defender. Ingênuo, "transpira inexperiência", pelas palavras da Gale.
Tatumm, sem dúvida a maior expressão de caricatura do filme, a "gostosa", loira, com seios que até nós brasileiros consideramos acima do padrão de tamanho.
Billy, Stu e Randy, o trio de idiotas aficionados por filmes. Randy em especial, é o maior condutor de metalinguagem. Caricato como o nerd de escola típico, ele é responsável por entrar em contato conosco e nos dizer as regras dos filmes de terror. E nunca diga "Eu voltarei".
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| Dúvido que alguém contabilize nos comentários quantos penteados de cabelo a Courtney Cox usou durante a franquia. |
E eis o maior ícone do terror de todos os tempos (ou algo próximo disso): O ASSASSINO!
Aqui é a parte mais legal de todas. Wes Craven sem dúvida era fã de Halloween, trazendo além da máscara, uma mêcanica tirada diretamente dos livros da Agatha Christie: Quem é o assassino? E taí um dos maiores méritos do filme, que é fazer você caçar cena por cena pelo maldito. Esses dias dois dos meus amigos (Jonas e Wal) que nunca tinham visto o filme, assistiram pela primeira vez. "Olha, fulano ficou na festa e os outros foram embora, ele tá aí." "Olha, ela buscou cerveja e o assassino voltou pela porta". Quase dá pra fazer um bolão. E no final, a obviedade da trama foi tão bem planejada pra enganar os espectadores, que os dois ficaram como eu na primeira vez que assisti: com cara de bobo.
As melhores cenas de perseguição de Hollywood não vieram de Velozes e Furiosos, mas sim de Scream!
E aqui temos o mito da máscara do Pânico. Você já viu ela, disso não tenho dúvida. E viu em tudo quanto é canto. Na Zombiewalk da sua cidade, na loja de festas e decoração, nas paródias, nos programas de TV de Domingo, e você sabe disso.
Pânico na TV, o maior (maior não quer dizer melhor, que fique claro afinal o melhor era o comédia MTV) programa de humor da TV brasileira, sim, tem esse nome graças a amada franquia de Wes Craven. Inclusive, no início, a figura do Pânico aparecia em diversos quadros e brincadeiras, mesmo que depois de alguns anos eles não usem mais a imagem do ghostface killer com tanta frequência.
E sim, vocês sabem do que eu vou falar. Da mesma distribuidora dos quatro filmes originais, saiu um dos mais icônicos filmes de comédia da história - se Pânico em sua época gerou diversos filmes genéricos (Pânico no Lago, Pânico na floresta, etc etc etc), "Scary Movie" gerou centenas de filmes genéricos de paródias. E também é o responsável por termos memórias de Scream original como um filme galhofa. Mas não julgo ninguém - o primeiro filme é bem engradalho MESMO.
| Lembra dessa infame criatura a esquerda correndo atrás das pessoas? Tem gente que achava engraçado. |
Talvez não tenhamos mais Pânico nas telonas... Mas você ainda vai ver a imagem do assassino da franquia em toda festa a fantasia que for.
Wes Craven morreu. A franquia Pânico teve quatro filmes incríveis (o que é muito raro no genêro Terror/Suspense: continuações decentes) nas mãos do mestre do horror, mas agora as já baixas esperanças de um quinto filme são menores. Sim, sim, temos uma série da MTV (que é até boa, mas sem a essência dos filmes), que trás outro visual pro assassino, outros personagens e outra trama. Mas é o nosso Assassino da Cara de Fantasma qual você vai se lembrar sempre que estiver sozinho em casa, fazendo pipoca e se preparando para assistir um filme de terror. Quer um conselho? Não atenda o telefone.



