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| Eis livros que pagaram o preço do ferro e velejaram por minha mochila durante dias |
Eu amo ler, e acredito que boa parte dos nerds curte também. Mas pra qualquer pessoa, é complicado embarcar em livros que tem pelo menos 600 páginas, quase atingindo a casa dos milhares em dois pontos da saga. Mas no caso das Crônicas de Gelo e fogo, vale muito a pena, e vou dizer os motivos disso.
George R. R. Martin é um mestre da escrita
Isso poderia ser óbvio, mas não é. O sucesso de várias obras advém de uma boa campanha de marketing e infelizmente num considerável número de vezes, são obras ruins. Esse definitivamente não é o caso das Crônicas de Gelo e Fogo. Martin tem maestria em vários elementos, desde o sarcasmo das situações até a montagem do enredo. Ele sabe administrar perfeitamente o timing, e até o humor, relativamente mais presente no livro do que na série, é sempre feito de forma ácida e "tragicómica", salvo raríssimas exceções. Martin sabe ligar perfeitamente os diversos enredos, além de ser completamente coeso com o próprio universo. Os acontecimentos dos últimos livros, numa primeira lida, parecem criados espontaneamente. Ao reler os primeiros livros, e ver menções a personagens que só ganhariam destaque 3 ou 4 números a frente, é bastante recompensador. A leitura de livros gigantescos é feita rapidamente, e as cenas são tão bem escritas, que dificilmente você sentirá o peso do tamanho dos livros.
Os livros complementam a série, e a séria complementa os livros
| O segredo a respeito do que é feito dos filhos de Craster foi revelado apenas na série de TV, enquanto os livros mantém o mistério até hoje |
Muitas das vezes, ao se ver uma obra adaptada, o formato de origem contém mais informações do que a versão áudio-visual. A verdade é que com Game Of Thrones não é diferente. Os eventos passados e presentes são muito melhor desenvolvidos nos livros, e os personagens tem sua personalidade mais bem explorada na mídia escrita também. Além disso, os livros criam diversas teorias - algumas confirmadas, centenas de outras não - sobre fatos que só são possíveis lá (até teorias, bem plausíveis, sobre o Bran ter se alimentado sem saber de outro humano existem). Porém, alguns segredos dos livros, foram - e estão sendo, vide o último episódio - revelados apenas na série. Após quase 20 anos, finalmente pudemos saber como os Andantes Brancos foram criados e como se reproduzem - algo que por mais que Martin tenha dado dicas, não haviam confirmações. Mas quem foi o homem que se tornou o primeiro caminhante branco? Ah, essa resposta você só vai saber se ler o livro :) (ou pesquisar qualquer fórum sobre na internet)
Alguns personagens tiveram desfecho bem diferentes... e macabros
Até a terceira temporada da série, que no contexto equivale a metade do terceiro livro, a série era extremamente fiel aos acontecimentos das crônicas, salvo pequenas exceções, como o arco da Arya na segunda temporada. Existiam cenas e diálogos que eram idênticos aos livros, letra por letra. Mas a partir da quarta temporada, as coisas começaram a mudar. Os livros são realistas ao extremo, e essa é uma qualidade deles, e lá, personagens perambulando por Westeros dificilmente se encontrariam, e algumas jornadas eram curtas demais. Outras, contavam com personagens coadjuvantes, que mesmo interessantes, morriam logo ou deixavam o caminho dos protagonistas em pouco tempo. A série então começou a proporcionar encontros ótimos, que não aconteceram nos livros, e essa é uma qualidade incrível. Porém, ainda assim, os livros deram lutas épicas para alguns personagens, bem como a volta de outros.
E o melhor exemplo que posso dar é o de Catelyn Tully Stark. Na série, a vimos morrer no casamento vermelho, e então nunca mais a vimos. Nos livros, isso tem um desfecho diferente, macabro e chocante. Não vou soltar spoilers aqui, mas posso dizer duas letras: LC.
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| Stannis Baratheon, além de nos livros ter uma espada flamejante graças a Melisandre, tá vivão até agora |
O terceiro livro, A Tormenta de Espadas, é singular, incrível e épico
Ainda que o terceiro livro estivesse longe do fim das crônicas, ele fechou um ciclo: claramente a história mudou totalmente após esse livro, encerrando os primeiros arcos que começaram em Game of Thrones. Foi na Tormenta de Espadas que notamos que Porto Real não era realmente o centro de Westeros, nem que Jaime ou Cersei eram o mal encarnado. Foi lá que vimos as maiores psicopatias de Jeoffrey, e lá vimos sua queda. Vimos arcos de Robb Stark, Catelyn, Stannis, Tyrion, Jaime, Brienne, Sam, Arya e até do Montanha (que nunca foi protagonista, mas por meio de outros personagens era notável o arco que ele traçava desde o primeiro livro) terminarem ou mudarem completamente. Cada capítulo possuía um climax, uma revelação, um combate. O nome do livro fez jus a tudo que foi escrito: era época de chuvas em Westeros, e a chuva permeava, em sua forma mais incômoda e suja para os personagens: trouxe espadas, que nunca antes haviam matado tanto quanto neste livro. E o prólogo... Ah, o prólogo. Pois é.
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| A montanha e a víbora vermelha |
Um certo plot da Dança dos Dragões
Todos temos de admitir: um dos poucos erros da série é a trama confusa e com erros de continuidade de Dorne. Lá, absolutamente TUDO aconteceu de forma diferente dos livros. Se nos livros, Martin manda Myrcella para lá, para que após dois livros isso fosse usado de gancho para três plots incríveis da região, a série acabou deixando tudo isso pra lá, e criou sua própria história, cortando personagens e mandando Jaime para protagonizar a ação por lá. Se na série a gente questiona a qualidade de escrita de quase todas as cenas de lá, nos livros isso é inquestionável. Uma protagonista que surge no quarto livro, Arianne Martell é sem dúvida uma das personagens mais interessantes e carismáticas de toda a saga, bem como seu pai, Doran Martell e seu guarda pessoal, Areo Hotah (que teve um fim bem "meh" da série, enquanto no livro é um dos protagonistas, com capítulos sob seu ponto de vista). E as serpentes de areia, que existem em número reduzido na série, mas existem, e tem certo protagonismo por lá. Nos livros, esses três "sub-núcleos" (Arianne, Serpentes e Doran Martell) se conflitam constantemente, apresentando dezenas de personagens e embates, tudo culminando numa das revelações mais chocantes e que vinha sendo plantada silenciosamente desde o primeiro livro. Mais uma vez, nada de spoilers, mas podemos dizer que os Dorneses do livro sem dúvidas estão entre os melhores jogadores da Guerra dos Tronos.
| Arianne Martel, a fazedora de Rainhas, sua pele cor de oliva, olhos e cabelos negros e um grande potencial de ser a melhor personagem da história. |
Quando comecei, em dezembro de 2014, a ler o primeiro livro, Guerra dos Tronos (que terminei 10 minutos pra meia noite do ano novo haha), tinha medo de nem conseguir terminar. Quando cheguei na página 50, notei que eu estava preso a trama (que eu já conhecia, por ter assistido a série, porém preso aos detalhes e aprofundamentos que só o livro possuía), e em quatro meses, me vi terminando de ler os três primeiros livros da série. Devido ao tempo que dediquei ao trabalho na metade do ano passado, só estou terminando de ler o quinto livro agora. Mas não me arrependo em nada das horas que dediquei lendo as Crônicas, e espero ter passado pra vocês um décimo do que senti ao ler, enquanto aprendi a amar essa história e a respeitar George R. R. Martin.


